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Bombeiro. Ajudar o próximo. Mais do que gente que apaga fogos, sempre associei os bombeiros àqueles que vestem a farda e vão socorrer a população. Seja num acidente de viação, num enfarte, ou apenas para tirar um gato do telhado. Não cheguei a deitar água em nenhum incêndio, mas levei pessoas ao hospital e senti o pulso da vida no quartel. Confirmei que é tão importante ser rápido e eficaz como solidário e generoso

“Tens carta? Então conduz!”, atira Jorge, o meu colega por um dia, apanhando-me desprevenida. Estou nos corredores da urgência do Hospital de Cascais, e o sr. Rui, deitado na maca, aguarda que alguém o conduza ao serviço de raio X. E rápido, seja eu ou qualquer elemento vestido de azul e encarnado. Chegou a minha vez, deduzo. Está na hora de agir sozinha e não dar apenas assistência. Tento não me atrapalhar, não embater nas macas que encontro pelo caminho e não substituir a atenção ao meu doente pelo nervoso da missão. É um rosto confortante e não um ar de estagiária que procura este senhor com mais de 80 anos, indiferente ao condutor, e queixando-se das dores na barriga que a queda do dia anterior lhe provocou.

A manobra de transferência do sr. Rui da maca para a estrutura do raio X não corre tão bem como eu desejava. Faltam-me as forças para segurar na maca de madeira e tem de ser um auxiliar do serviço a completar a acção. Sem stress, percebo pelo olhar do meu colega. De regresso à urgência, vou ajudando o sr. Rui a responder às perguntas e solicitações do médico. Levantar a perna, explicar onde dói, como caiu, chamar a acompanhante.

Não estou sozinha, mas agarro a oportunidade o melhor que sei, enquanto o João e o Jorge, os dois bombeiros que acompanhei no serviço, dão seguimento aos procedimentos burocráticos. O sr. Rui está com dores, depreendo pela sua cara de sofrimento, e deve ter uma costela partida. “Aos 80 e tal já dói em todo o lado”, brinca o médico, pegando nos exames e levando-os para o gabinete para os observar. Mas está, principalmente, assustado.

Tento confortá-lo, augurando-lhe perspectivas de um regresso rápido a casa e ajudando-o a ultrapassar a ansiedade da espera. Os meus colegas preenchem os verbetes que provam o serviço feito e que lhes permitirão que este seja pago pelo INEM. Enquanto ajusto o cobertor que o Jorge foi buscar para colocar debaixo da sua cabeça, tento passar despercebida aos olhos de um médico meu conhecido que passa trás de mim. Ao contrário dos elementos da minha equipa, que se desdobram em cumprimentos ao pessoal auxiliar e médico, eu limito-me a sorrir e esforço-me ao máximo para que não dêem pela minha presença.

Recuperada a maca da Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de Cascais, a corporação em que me “infiltrei”, podemos regressar ao quartel. Mais tarde, os companheiros de equipa explicam-me que a prestação dos bombeiros no socorro pré-hospitalar termina quando se recupera o material. Ou seja, quando a maca em que se transporta o doente está em condições de ser devolvida à ambulância. Objectivo que pode ser cumprido cinco minutos depois de chegar ao hospital ou que, em casos de falta de macas, pode só acontecer muitas horas depois. Como no fim-de-semana passado, em que a urgência estava completamente cheia e as macas todas ocupadas, conta João Loureiro, comandante da corporação.

Missão técnica mas também humana

Regresso ao quartel e no caminho auto-avalio-me nesta primeira experiência. O meu sonho de criança já foi diluído pelo tempo e os passeios ao quartel dos bombeiros pela mão do meu avó são hoje memórias de um passado distante. Mas confesso que, no fim deste serviço e depois das palavras de incentivo ao alistamento proferidas pelo adjunto de comando, percebo porque era bombeira que dizia querer ser quando fosse grande. Mais do que aplicar primeiros socorros, há um lado humano desta missão que entusiasma e cativa.

São 11.10. Mas o alarme para a primeira ocorrência do dia soou há uma hora atrás , duas horas depois de me ter apresentado ao serviço no quartel. O socorro inicial ao sr. Rui foi relativamente simples. Com muito cuidado e sem pressas, colocámo-lo numa cadeira de rodas para o retirar da cama até à rua e depois deitámo-la na maca da ambulância que o levou até ao hospital. A funcionária do lar onde vive o sr. Rui seguiu connosco na ambulância e foi dando indicações sobre o historial clínico do doente que foram depois transmitidas no hospital.

Antes de sair para a rua, já eu tinha aprendido algumas noções básicas do serviço e ajudado na manutenção do material. Aliás, quando não há ocorrências, é isso mesmo que os profissionais de primeira intervenção vão fazendo. É preciso conferir as condições do equipamento de socorro e de protecção individual, como os cilindros de ar comprimido que, se não tiverem a pressão recomendada, têm de ser ajustados no compressor, sob pena de não fazerem efeito.

É isso que o Bruno está a fazer junto do compressor instalado numa arrecadação no pátio do quartel. O resto da equipa que entrou, como eu, às oito da manhã, fica completa com mais um Bruno e o Marcelo. Estão quase todos de volta do veículo de desencarcera mento, efectuando operações de manutenção. Testa-se a moto serra, confere-se o combustível, limpa-se o que está a precisar de limpeza. Quando não há nada para fazer, conversamos, lemos o jornal. O Marcelo aproveita para socorrer umas vítimas num jogo de computador disponível na sala de convívio.

O adjunto de comando, 54 anos de vida e quase 40 de serviço, vai dissertando sobre as experiências agradáveis e desagradáveis deste ofício. Como o simples resgate de um gato em cima da árvore ou um cão preso na escada de uma piscina, ou a recuperação de um cadáver em avançado estado de composição nas pedras do mar do Guincho. “Há coisas que nos tocam profundamente. Como uma miúda que tomou um frasco de comprimidos e não foi possível salvar”, recorda, emocionado. Outro sinistro duro de socorrer foi a vítima de um acidente de viação, que era cara conhecida e chegou ao hospital praticamente irreconhecível.

À hora do almoço vou ouvindo mais histórias de quem já anda nisto há muitos anos. O comandante João Loureiro recorda os anos trágicos de 2003 e 2005 e as vítimas do combate aos incêndios florestais que, felizmente e apesar de 126 anos de história, sublinha, ainda não fizeram mortos nem feridos nesta casa.

Da parte da tarde há caras novas no quartel. Elementos do turno da tarde que acabaram de chegar, ou gente da terra que aproveita a hora do almoço para cumprimentar os amigos. A agitação é maior e não tarda muito até caírem dois serviços de socorro pré-hospitalar que nos levam de novo aos corredores do Hospital de Cascais. “Saída de uma ambulância INEM”, anuncia no altifalante o operador de telecomunicações. Dois minutos depois, nova chamada em alta voz, desta vez uma ambulância de reserva, também ao serviço do Instituto de Emergência Médica. A gestão dos meios para ocorrer às duas situações provoca alguma tensão e o comandante é obrigado a engrossar a voz na distribuição do trabalho. Rapidamente as duas ambulâncias saem, obrigando a soar a campainha para facilitar a saída do quartel.

Mais um socorro pré-hospitalar

Mariana caiu no chão quando jogava futebol na escola. Tem 15 anos, está imobilizada na maca da urgência pediátrica e denuncia dores no corpo e pouca sensibilidade nos membros inferiores. O cenário suscita preocupação, mas a jovem está bem disposta. Levamo-la ao raio X e de lá trazemos num envelope a confirmação de que, afinal, não é nada de grave. A jovem aproveita para atirar umas piadas à mãe e às restantes pessoas que a rodeiam: nós, a médica e a auxiliar. “A culpa foi da bola. E eu não sou nenhum Cristiano Ronaldo, sou uma jogadora da treta”, diz, em tom de brincadeira e aliviada por substituir a estrutura de madeira em que está deitada por outra mais confortável.

A mãe ri-se e suspira de alívio, enquanto o pai, que não controlou as lágrimas ao ver a filha chegar de ambulância, aguarda lá fora. Aqui a nossa missão está terminada. Mas ao lado, no balcão dos homens, o senhor de 47 anos que se sentiu mal e foi socorrido em casa pela outra equipa, ainda está a ser visto pelo médico. Minutos mais tarde, estamos todos prontos para voltar à base.

Na sala de operações do quartel a situação está complicada. Uma equipa que estava de volta foi encaminhada para outra escola do concelho, desta vez para socorrer uma jovem com falta de ar. O telefone não pára de tocar e operador não tem mãos a medir. O sr. Rui que ajudei a socorrer de manhã teve alta e precisa de retornar ao lar, mas uma confusão com o seu nome acaba por baralhar o serviço e atrasar o transporte, obrigando a vários telefonemas até ficar esclarecido o mal entendido.

Já passa das quatro da tarde, hora do fim do turno, mas ainda tenho esperança de ir para o teatro de operações e ajudar no combate ao incêndio que deflagra na Parede. Mas o problema resolveu-se sem ser necessário chamar reforços de Cascais. Antes assim. O balanço do dia é calmo, dizem-me. Nem sempre é assim. O mais emocionante, acrescentam, é mesmo não saber o que vai acontecer quando se sai de casa.


RITA CARVALHO

Fonte: DN

PEQUIM – Até às 8h (horário local), mais de 130 mil soldados chineses se dedicaram às operações de resgate nas áreas devastadas pelo terremoto. Além disso, equipes de resgate já chegaram a todos os 58 distritos e vilas atacados pelo forte terremoto da segunda-feira.

Aviões e helicópteros já levantaram 300 vôos para levar ou lançar equipes de resgate e artigos de ajuda. Cães farejadores também foram enviados à região para auxiliar nas buscas. Na cidade de Dujiangyan, os cães ajudaram um grupo de tropas do Comando Militar de Pequim a procurar sobreviventes.

As ferrovias estão sendo usadas para transportar soldados e assistência de alívio. Entre os 56 trens, que carregaram 28 mil soldados para as áreas afetadas, 21 trens, ou mais de 10 mil soldados, chegaram hoje antes das 6h, disse o porta-voz do Ministério das Ferrovias da China, Wang Yongping.

Segundo a agência estatal Xinhua, um total de 844 vagões de materiais civis estão também a caminho, incluindo 79,7 mil tendas, 828,6 mil caixas de água, 18,87 mil peças de medicamentos, e 351,1 mil cobertas de algodão e mantas, disse Wang.

[ 09:43 ] 15/05/2008
Portal Terra

da Folha Online

Cerca de 10 mil pessoas morreram em conseqüência do terremoto que abalou a China nesta segunda-feira, enquanto equipes de resgate continuam lutando para chegar às áreas mais afetadas, onde mais pessoas podem ter morrido.

Equipes de resgate seguiram trabalhando durante a noite, tirando corpos de escolas, casas, fábricas e hospitais destruídos pelo terremoto de 7,9 graus, que teve seu epicentro em uma montanhosa região da Província de Sichuan e foi sentido em boa parte da China na tarde desta segunda (hora local).

AP

Equipes de resgate procuram por sobreviventes nos escombros de um hospital
O número de mortos do pior tremor dos últimos 30 anos no país deve subir, enquanto militares lutam para conseguir chegar na área mais afetada, Wenchuan, um Condado montanhoso com 112 mil habitantes a 100 km de Chengdu, capital da Província.

Na cidade de Dujiangyan, ao sul do epicentro, uma escola desabou, deixando cerca de 900 estudantes presos nos escombros, e outros quatro morreram na hora, de acordo com a agência de notícias oficial Xinhua.

Grande parte da área afetada foi fechada à imprensa externa e a turistas, o que dificulta obter informações independentes. Estradas a norte de Chengdu que vão até a área do desastre foram bloqueadas e apenas comboios de emergência podem passar.

A Xinhua afirmou que em outra escola de Dujiangyan cerca de 420 estudantes ficaram presos sob escombros, e menos de cem sobreviveram. “Nenhum minuto pode ser perdido”, disse o premiê chinês, Wen Jiabao, que foi à região. “Um minuto, um segundo, pode significar a vida de uma criança.”

Resgate

Moradores de Chengdu dormiram do lado de fora de suas casas ou dentro de automóveis, temendo mais tremores na cidade, onde ao menos 45 morreram e cerca de 600 ficaram feridos.

A mídia estatal afirmou que houve 313 tremores secundários após o principal. O terremoto ocorreu a cerca de 10 km de profundidade.

José Medeiros da Silva/Arquivo Pessoal

Estudantes se preparam para dormir ao ar livre em campus após terremoto de 7,9 graus
O governo se apressou em enviar tropas e equipes médicas para procurar sobreviventes e tratar dos feridos. Às vezes tentando conter as emoções, Wen pediu para não desperdiçarem nenhum esforço enquanto pedia a moradores em lágrimas para manterem a calma.

Cerca de 200 mil soldados, policiais e reservistas foram enviados à região afetada, com alguns seguindo a pé devido à impossibilidade de transitar pelas estradas.

“Precisamos urgentemente de tendas, comida, remédios e equipamentos de comunicação por satélite”, declarou o chefe do Partido Comunista de Wenchuan, Wang Bin, de acordo com a Xinhua.

A maioria das casas de agricultores em dois vilarejos do Condado desabou, e ainda não havia notícias das três cidades mais próximas do epicentro, que tem uma população de 24 mil, segundo a Xinhua. Até o momento, o Condado de Wenchuan reportou 15 mortos, mas o número deve subir rapidamente.

Mais de 7.000 podem ter morrido no Condado Autônomo de Beichuan Qiang, em Sichuan, onde 80% das construções desabaram, de acordo com a TV de Sichuan.

Arte Folha Online

“Mesmo se significar que temos de chegar andando, temos de chegar nas áreas mais atingidas o mais rápido possível”, disse Wen, segundo a Xinhua.

Porém, um autoridade paramilitar que seguiu com centenas de homens para Wenchuan descreveu uma cena devastadora.

“Vi muitas casas destruídas, e as pedras que caíram das montanhas sobre as estradas estão por todos os lado”, disse Liu Zaiyuan, membro da Polícia Popular Armada.

Tempestades

A previsão de tempestades em Sichuan nesta terça-feira pode tornar os trabalhos de resgate ainda mais difícil e causar o deslizamento de mais pedras.

A maioria das linhas de telefone em Wenchuan não funcionava, e um site da prefeitura de Aba, na região, dizia que o terremoto havia bloqueado várias estradas principais.

Deslizamentos de terra bloquearam as três principais estradas de ferro que levam a Chengdu.

Acredita-se que o tremor tenha sido o pior a atingir a China desde o terremoto de 1976, em Tangshan, onde até 300 mil pessoas morreram.

Um tremor em 1933 na mesma área deixou cerca 9.000 mortos.

O serviço geológico dos EUA elevou a magnitude do tremor de 7,8 para 7,9.

Com Reuters e Associated Press